quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Leonardo Boff, místico da terra

Frei Betto

Leonardo Boff completou 70 anos no último dia 14 de dezembro, festa de são João da Cruz.

Desde 1974, quando deixei a prisão e ele retornou de seus estudos na Alemanha, comparto a mesa e a palavra de Leonardo Boff. Duas vezes por ano, religiosamente, passamos juntos um fim de semana, trocando idéias e vivências com o Grupo Emaús, que reúne teólogos, pastoralistas, filósofos e cientistas sociais.

Juntos, assessoramos o governo sandinista da Nicarágua e a Revolução cubana em suas relações com a Igreja Católica. Estivemos um mês na China, em 1988, em contato com os cristãos interessados em encontrar o ponto de equilíbrio de suas relações com o regime socialista.

Leonardo Boff confidenciou-me, em Corrêas, RJ, em 23 de abril de 1987: “Li Platão, Santo Agostinho, e toda obra de são Boaventura, à luz de vela, no noviciado franciscano. Minha estrutura de pensamento é boaventuriana - as coisas não são, elas simbolizam. Tive experiências de Deus. Gosto de estar só. Minha espiritualidade é quase corporal. Não digo nada quando rezo. Rezo o Glória ao Pai e não peço nada. Só pedi por minha sobrinha, que agonizava. Fiz promessa de romaria a Aparecida. Ela sarou e eu cumpri a promessa.

“Na Europa, passei pela fase do pensamento germânico, racionalista, e perdi a fé. No comentário dos Salmos fiz a experiência dolorosa de recuperar a fé.

“Nunca rezei aos santos. A Nossa Senhora sim. E gosto muito da Trindade. Toda a minha vida é trinitária. Organizo tudo em três. Meu livro sobre a trindade é a culminância de toda uma busca. Busco recuperar Deus como Deus trinitário. Não sei se rezo. Às vezes me sinto rezador por viver nessa atmosfera religiosa.

“Para mim, fazer teologia não é rezar, é refletir sobre Deus. Rezar é não pensar, é sentir Deus. É o coração que sente Deus, como dizia Pascal. A razão não pensa Deus.

“Procuro estar nas mãos Dele. Ele me põe e me tira das crises. Nem me preocupo em me salvar. O inferno é uma verdade assintótica, como dizia Rahner, para nos alinharmos em Deus. Todos saímos de Deus e a Ele voltamos”.

Este é Leonardo: místico, teólogo, militante.



Ecoteologia



Todos torcemos para que a ciência encontre o modo de expulsar os vírus que contaminam o organismo humano. Seria exagero imaginar a Terra/Gaia, um corpo vivo, aniquilando o principal vírus responsável por sua destruição - os seres humanos?

Esta é uma das inquietações de Boff, hoje dedicado à ecoteologia. Censurado por Roma, ele deixou a Ordem Franciscana e o ministério sacerdotal. Não abandonou, contudo, seu ofício teológico nem rompeu sua comunhão com a Igreja. Agora, como leigo, ampliou seu espaço de liberdade. Cada novo livro que sai de sua pena representa mais um grito em prol dos pobres e da saúde da Terra.

Toda a sua obra mais recente é um alerta de salvação da Terra e de seu fruto mais precioso - a própria humanidade. Boff convida-nos a uma viagem aos primórdios culturais - as narrativas ancestrais sobre a origem do mundo - e científicos, a autogênese da matéria, do Big Bang à noosfera. Observador atento, ele analisa os pecados capitais antiecológicos num campo específico - a Amazônia - e percorre a holística senda que nos conduz da física quântica às narrativas indígenas sobre o Universo, da cosmogênese à Cristogênese, numa versão hodierna de Teilhard de Chardin. Propõe-nos, enfim, o empenho na construção de uma "biocracia”, democracia sociocósmica, centrada na vida.

Da lógica pericorética do Universo - "tudo interage com tudo em todos os pontos e em todas as circunstâncias" - deriva o estilo narrativo de Boff. Ainda que o pulsar das estrelas e a irrupção das células, a exploração mercantil da natureza e a comunhão intratrinitária do Pai com o Filho e o Espírito Santo, pareçam coisas distintas, elas reluzem, na obra dele, como desenhos de um mesmo tapete. Não se pode compreender o significado de uma figura sem apreender sua intrínseca relação com as demais. "Nós somos, como partes do Universo, todos irmãos e irmãs: as partículas elementares, os quarks, as pedras, as lesmas, os animais, os humanos, as estrelas, as galáxias. Há um tempo estávamos todos juntos, sob forma de energia e partículas originárias, na esfera primordial; depois, dentro das estrelas vermelhas gigantes; em seguida, em nossa Via Láctea, no Sol e na Terra. Somos feitos dos mesmos elementos. E como seres vivos possuímos o mesmo código genético dos outros seres vivos, das amebas, dos dinossauros, do tubarão, do mico-leão-dourado, do Australopiteco ao homo sapiens-demens contemporâneo. Um elo de fraternidade e sororidade nos une objetivamente, coisa que São Francisco, no século XIII, intuiu misticamente. Formamos a grande comunidade cósmica. Temos uma origem comum e, certamente, um mesmo destino comum", escreve ele.

Engana-se quem, na ótica dos velhos paradigmas, julga o autor um neófito panteísta convencido de que tudo é Deus e Deus e mundo se identificam. Sua abordagem é inversa, é panenteísta - Deus se faz presente em todas as coisas. Toda a Criação e as criaturas são sacramentos da presença inefável de Deus. Como também se equivocam aqueles que julgam que Boff trocou a libertação dos pobres por um mero modismo de defesa do meio ambiente.

Sua teologia da libertação amplia-se, centralizando-se no pobre, principal vítima também da destruição ambiental, e nomeando-o como sujeito de uma alternativa que reate os vínculos que foram rompidos entre o ser humano e seus semelhantes e entre a humanidade e a natureza, da qual somos expressão e plenitude. "A teologia da libertação deve assumir, do discurso ecológico, a nova cosmologia, a visão que entende a Terra como um superorganismo vivo articulado com o inteiro universo em cosmogênese", ele propõe. Por isso, insiste que "importa, em primeiro lugar, ampliar o sentido da libertação. Não apenas os pobres e oprimidos devem ser libertados. Mas todos os seres humanos, ricos e pobres, porque todos são oprimidos por um paradigma que a todos escraviza, de maltrato da Terra, de consumismo, de negação da alteridade e do valor intrínseco de cada ser".

Um homem pode mudar de lugar social e de função institucional. Entretanto, a matriz de sua identidade permanece imutável e, por vezes, inapreensível. Em cada livro ou palestra, Boff revela-se inelutavelmente franciscano. Seu paradigma pessoal tem nome e data: Francisco de Assis (1181-1226), "um ser de desejo", como ele define.



Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística e Espiritualidade” (Garamond), entre outros livros.

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